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Esta é a vida eterna: que te conheçam, o único Elohim verdadeiro, e a Yeshua o Messias, a quem enviaste. JOÃO 17:3
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O que é a trindade?

O que é a trindade?
Postado por Valdomiro
mai 10
TENTANDO ENTENDER O CONCEITO TRINITÁRIO
Embora a trindade seja um assunto comumente aceito dentro da maioria das religiões cristãs, no geral os crentes não se dão conta das implicações teológicas e, com mesmo peso, as questões históricas que envolvem o tema. Na verdade a grande maioria tanto de crentes como de não religiosos responderiam se perguntássemos a eles: “Jesus é Deus ou Filho de Deus?” que Jesus é Filho de Deus. Quando se fala em trindade muitos nem sabem exatamente do que se trata, apenas ouvem e preferem não se aprofundar a respeito, pois diz-se que é um mistério insondável, e aceitam esse dogma por fé, por haverem aprendido assim, mas não tem convicção própria desse ensinamento. Outros buscam entender, mas se sentem confusos e vivem eternamente em conflito com seus pensamentos sobre o assunto, por não conseguirem equacionar o que aprenderam de seus ensinadores com o que a Bíblia fala a respeito de Jesus Cristo; há aqueles que tentam justificar a existência da trindade dentro da Bíblia com argumentos teológicos por vezes complexos, abstratos e virtualmente paradoxais. Mas, no geral, a grande maioria dos crentes em denominações trinitárias são unitários funcionais, ou seja, via de regra reconhecem o Pai como Deus acima de tudo.
Deve-se ter claro em mente que a trindade, conforme concordam todos os estudiosos sobre o tema, sejam trinitarianos ou não, NÃO é ensino claro nas Escrituras Sagradas. Não há passagem do Antigo Testamento que indique, sem que se force o texto, que tal conceito seja real. Absolutamente nenhum dos escritores do Novo Testamento ensinaram acerca da trindade. No máximo os estudiosos atuais, a partir dos concílios católicos, presumem deduzir a existência do dogma baseando-se em certos textos tanto bíblicos com extrabíblicos, ou seja, aqueles textos oriundo dos chamados Pais da Igreja, mas, também deve-se registrar que nenhum dos chamados Pais da Igreja que viveram até o II século ensinaram a trindade, como concebida hoje. Atenágoras, se considerarmos verdadeiras as afirmações atribuídas a ele, talvez seja da safra do II século o único que tenha falado mais claramente sobre a questão, mas mesmo assim o pesquisador J. N. D. Kelly registra “todos eles, incluindo Atenágoras, identificavam a geração do Logos e, consequentemente, Sua qualificação ao título de ‘Filho’ não com o momento em que teria sido originado dentro do ser da Divindade, mas como o instante de sua emissão ou expressão com vista aos propósitos da criação, revelação e redenção”1. Os poucos (dois ou três) que usaram o termo, quando muito, o fizeram como indicativo da listagem composta por Pai, Filho e Espírito Santo, em um relacionamento com vistas o plano do Pai, mas jamais intentaram afirmar qualquer consubstancialidade a nível da co-igualdade entre os três. Todos eles se espantariam se vissem, hoje, qual significado deram para essa palavra.
Mas, o que é a trindade? Trindade é o nome dado ao arranjo teológico que define Deus como sendo três pessoas ou hipóstases2. Segundo esse conceito o Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espírito Santo é Deus, no entanto não são três deuses, mas um e único Deus consubstanciado em três pessoas. Nesse sentido Deus não é um ser singular, mas composto. Ainda segundo esse conceito cada um não é menos Deus que os outros dois e os três juntos não são mais Deus que qualquer um deles individualmente e Agostinho3 confirma essa ideia dogmática ao afirmar que “na verdade substancial, não somente o Pai não é maior do que o Filho, mas que ambos juntos não são maiores do que o Espírito Santo”4 A dificuldade de compreensão começa ai. Como pode ser um Deus pessoal e único, se existirem três pessoas que são ELE. Essa abstração é um dos maiores motivos de os trinitarianos serem constantemente acusados de triteístas, mas tal classificação é a última coisa que um trinitariano deseja receber, pois isto o excluiria do monoteísmo ensinado na Bíblia sobre a qual se fundamenta a religião professa cristã. Para resolver esse problema fizeram-se muitos e muitos estudos cujo objetivo era popularizar cada vez mais o conceito e isso durou, literalmente, centenas de anos5 até passarem a fazer uso do termo “substância”, palavra emprestada da filosofia grega e que passou a ser empregada como solução para o triteísmo que o dogma da trindade enseja. Pois se se dissesse que Deus é uma pessoa e três pessoas seria flagrante contradição. Deus passou a ser encarado, então, como algo que lhe tirou a pessoalidade e individualidade coisificando-o. Tal conceito encontra seu melhor defensor em Agostinho que categoricamente diz “Deus é, sem dúvida, uma substância…”6. Esse foi o único caminho encontrado pelos teólogos da trindade e parecem estar satisfeitos com uma definição acerca de Deus que não está na Bíblia. Desse modo podia-se dizer que Deus ao invés de ser uma pessoa era uma “substância” ou “essência” onde três7 pessoas ou hipóstases coexistem ou, como preferem alguns, subsistem8. Esse argumento sofreu inúmeras resistências ao longo de sua formação que, como já foi dito, durou centenas de anos, tanto por pessoas que se opuseram a ele, quanto por pessoas que até concordavam e achavam ser possível uma co-igualdade entre Deus e seu Filho, mas muitos destes últimos defendiam que uma doutrina para ser plenamente bíblica não deveria precisar de argumentos extra-bíblicos, mas foi justamente o que aconteceu, para ser demonstrada de forma o mínimo aceitável. Nesse ponto se verificou a necessidade de influência político-eclesiástica para inibir as resistências e fazer essa crença ser aceita. O paradigma da necessidade da explicitude bíblica de uma doutrina para ela ser considerada cristã foi quebrado e o argumento para aceitar essa nova maneira de entender a Bíblia é que as Escrituras não proviam aos seus estudantes todos os termos necessários para expressar seu conteúdo doutrinário de forma satisfatória. Isso equivale a dizer que para o dogma considerado o mais importante pela maioria dos cristãos a Bíblia sofre de insuficiência, pois não o expressou de forma direta e clara, e carece de termos que o defina de forma plena.
Todos sem exceção dizem que a trindade é um mistério insondável, mas a Bíblia diz: “O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou”. Ora, se a Bíblia diz que Jesus revelou Deus para nós, como pode a revelação que visa esclarecer alguma coisa tornar-se um mistério insondável muito maior, oculto e incompreensível de que no período anterior à essa revelação?
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1 J. N. D. Kelly in Doutrinas Centrais da Fé Cristã, pg. 74
2 Segundo o Dicionário Grego do Novo Testamento de Carlo Rusconi, Ed. Paulus, a palavra grega hipóstase significa “essência” ou “substância”.
3 Aurélio Agostinho, também conhecido como Santo Agostinho de Hipona foi um importante bispo cristão e teólogo. Nasceu na região norte da África em 354 e morreu em 430. Em 395, passou a ser bispo, atuando em Hipona (cidade do norte do continente africano). Escreveu diversas obras, dentre as quais um tratado filosófico sobre a trindade intitulado “A Trindade”. Segundo consta essa obra foi escrita entre 400 e 416 d.C.
4 Agostinho in A Trindade, Paulus Editora, 2ª Edição – 1994, pág. 484
5 Perceba que para tornar e transformar aceitável a ideia de que Deus seja uma composição de três pessoas co-iguais precisou-se, não de poucos anos e nem aconteceu da noite para o dia, mas transcorreram mais de 500 anos quando a questão do “filioque” (o reconhecimento da processão do Espirito como sendo originário do Pai e do Filho, culminando esse entendimento no cisma entre a igreja do oriente e do ocidente) foi “conciliada” apenas pela parte ocidental da igreja. Isto se deu ao fato de a Bíblia em nenhum momento ensinar o dogma trinitário, pelo contrário. Por isso foi preciso quebrar a resistência dos primitivos cristãos e criar um contexto histórico político-eclesial que permitisse a imposição dessa ideia como um dogma.
6 Idem, pág.193
7 Diz-se três pessoas, mas o conceito de “substância” aceita tantos se queira agregar à Deidade. Poder-se-ia, por exemplo, já que não existe qualquer prova de Jesus como sendo o Anjo de Yahweh manifesto no Antigo Testamento, alegar que o Anjo de Yahweh é, na verdade, também uma Pessoa Divina; portanto a quarta pessoa da “trindade”. Desse modo não mais se chamaria trindade mas “quaternidade”. E, se considerarmos, ainda, as conclusões de Agostinho que disse haver Pai, Filho, Espírito Santo e também a união dos três como sendo o Deus Trindade, então já seriam cinco pessoas ou entes na Divindade.
8 Algo que ficou perdido no tempo foi o fato de que o termo “substância” foi um artifício humano para adequar Deus à certa crença, e não passa de um valor atribuído a Deus, motivo pelo qual não se deve tomá-lo como certo ou como palavra final em uma possível “classificação” da Deidade.

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