Inicio | Temas Bíblicos |Leia a Biblia Leia a Bíblia | Post´s em Espanhol |Doações |Contato pt Portuguese
Esta é a vida eterna: que te conheçam, o único Elohim verdadeiro, e a Yeshua o Messias, a quem enviaste. JOÃO 17:3
faceicon
O ANTI-JUDAÍSMO NOS PAIS DA IGREJA E A ORIGEM DO DOMINGO

O ANTI-JUDAÍSMO NOS PAIS DA IGREJA E A ORIGEM DO DOMINGO

Ignácio, Barnabé e Justino, cujos escritos constituem nossa maior fonte de informação para a primeira metade do segundo século, testemunharam e participaram no processo de separação do judaísmo, o qual- levou a maioria dos cristãos a abandonarem o sábado e a adotarem o domingo como o novo dia de culto. Seus testemunhos, portanto, vindo de período tão primitivo, assumem vital importância para nossa investigação quanto as causas da origem da observância do domingo.
IGNÁCIO
Segundo Irineu, Ignácio era bispo de Antioquia no tempo de Trajano (98-117 A.D.)1 O bispo argumenta “contra as tendências judaizantes de seu território, o qual, não distante geograficamente da Palestina, havia sofrido as influências da sinagoga e dos cristãos judeus”2 Sua linguagem sugere que a separação do judaísmo estava progredindo embora os laços não tinham ainda sido rompidos.3De fato, a tenaz sobrevivência e veneração das instituições judaicas tal como o sábado, é explicitamente mencionada por este autor. Por exemplo, em sua Epístola aos Magnesianos, Ignácio escreve, “pois se ainda estamos praticando o judaísmo, admitimos que não temos recebido o favor de Deus. Pois os profetas divinos viveram em harmonia com Jesus Cristo. (cap. 8:1,2)”4No capítulo seguinte ele refere-se, novamente, a estes profetas do Velho Testamento “que viveram em caminhos antigos” e que “alcançaram uma nova esperança, não mais sabatizantes, mas vivendo segundo a vida do Senhor (ou do dia do Senhor – mecevti sabbativzontev alla cata zwen zontev)”5. A necessidade de se renunciar aos costumes judaicos é novamente solicitada no capítulo 10:3, onde se faz advertência de que “é errado falar sobre Jesus Cristo e viver como os judeus. Pois o cristianismo não acreditava no judaísmo,e sim o judaísmo no cristianismo”. Em sua carta aos de Filadélfia, o bispo semelhantemente admoesta que “se alguém lhe expuser o judaísmo, não o ouça, pois é melhor ouvir o cristianismo de alguém circuncidado, que o judaísmo de alguém não circuncidado” (cap.6:1).
Estas freqüentes recomendações para abandonar a prática do judaísmo implica uma forte inclinação para com os rituais judaicos dentro das comunidades cristãs da Ásia Menor. Neste clima, é difícil até conceber que uma ruptura radical com a guarda do sábado já houvesse ocorrido. Por outro lado, condenar as práticas judaicas como “sabatizantes”, isto é, a observância do sábado segundo o modo judaico,6 e a exortação de se “viver segundo a vida do Senhor”, no curso do tempo bem pode ter motivado a adoção, não somente de um modo de vida, mas até mesmo de um dia de adoração que fosse diferente daquele dos judeus. A introdução da guarda do domingo poderia então, ser parte do processo de diferenciação do judaísmo, o qual tornou-se necessário por razões anteriormente mencionadas.
O domingo já era observado por poucos ou por muitos na província da Ásia à época de Ignácio (cerca de 115 A.D.). Isto dificilmente pode ser estabelecido pela problemática passagem de Magnesians9:1. A sentença-chave “não mais sabatizantes, mas vivendo segundo a vida do Senhor (ou dia do Senhor)” em tempos recentes tem sido sujeita ao escrutínio por vários estudiosos.7 Para se ler na passagem uma referência ao domingo, é necessário ou inserir o substantivo “dia – hmevran ” ou assumir que este está implícito pelo uso de um caso acusativo cognato. Porém, como assinala Fritz Guy, “nas sete cartas não ocorrem tal construção de modo acusativo cognato.”8Esta seria a única exceção. Além do mais, O substantivo “vida – zwhvn ” acha-se presente no manuscrito grego mais antigo em existência (Codex Mediceus Laurentinus); assim, “vida do Senhor” é a mais provável tradução.
Mais significativo ainda é o contexto. Como Kenneth A. Strand concisa e incisivamente assinala:
Sem considerar o que “Dia do Senhor” possa ter significado tanto em Magnésia quanto em Antioquia, e sem considerar se Ignácio pretendia ou não um cognato no modo acusativo, o contexto revela que não são os primeiros cristãos que são descritos como “não mais sabatizantes”, mas sim os profetas do Velho Testamento que são descritos… Certamente Ignácio sabia que os profetas do Velho Testamento observavam o sétimo dia da semana, e não o primeiro! O contraste aqui, então, não é entre dias como tal, mas entre estilos de vida – entre o judaico modo de vida “sabatizantes” e a novidade de vida simbolizada pelos cristãos pela ressurreição de Cristo..”9
Os “sabatizantes” então que Ignácio condena, no contexto da conduta dos profetas, dificilmente poderia ser o repúdio do sábado como um dia, mas sim, como R. B. Lewis assevera, “a guarda do sábado de certa maneira – judaizantes”.10Este é, de fato, o sentido o qual é explicitamente dado ao texto na longa citação interpolada; “Portanto, não mais guardemos o sábado segundo a maneira judaica, regozijando-nos em dias de ociosidade.11 … Mas que cada um de vós guarde o sábado de um modo espiritual, regozijando na meditação da lei, não no relaxamento do corpo, admirando a obra de Deus, e não comendo aquilo preparado no dia anterior, nem usando bebidas mornas, nem andando até os limites de um espaço prescrito, nem achando deleite em danças e festividades, as quais não têm sentido.”12 O fato de que Ignácio insta aos cristãos que parem de “praticar o judaísmo” (Magnesians 8:1) ou “viverem como os judeus (10:3) e seguirem o exemplo dos profetas em não judaizarem a respeito do sábado, implica que muitos cristãos ainda estavam seguindo os costumes tradicionais judaicos, especialmente na questão da guarda do sábado. Se assim foi, dificilmente pareceria razoável presumir que os cristãos na Ásia já houvessem radicalmente abandonado o sábado e estivessem observando unicamente o domingo.
Notemos, por outro lado, que Ignácio, ao instar com os cristãos que se diferenciassem das práticas judaicas tais como as “sabatizantes”, oferece-nos significativos vislumbres de como a existência de atitudes e esforços anti-judaizantes contribuíram à adoção da observância do domingo. Temos indicações, contudo, que no Oriente, a substituição do culto do sábado pelo do domingo foi gradual, uma vez que as observância judaicas ali constituíam, como A. P. Hayman assinala, “uma atração perene… para o cristão.”13 O constante influxo de conversos da sinagoga bem podem ter contribuído para manter uma admiração constante para com os ritos judaicos como o sábado.14 Numerosos Pais Orientais lutaram, de fato contra o sábado o qual muitos cristãos observavam além do domingo.15 No Ocidente, particularmente em Roma, contudo, encontramos que o rompimento com o judaísmo ocorreu mais cedo e mais radicalmente, levando a substituição das festividades judias tais como o sábado e a páscoa.
BARNABÉ
A Epístola de Barnabé, datada pela maioria dos estudiosos como estando entre 130 e 138 A.D.,16foi escrita pelo pseudônimo Barnabé, provavelmente em Alexandria, um centro cultural cosmopolitano onde o conflito entre judeus e cristãos era particularmente agudo.17 Duas razões primordiais tornam a Epístola importante para nossa atual investigação. Primeiro, porque contém, de fato, a primeira referência explícita à observância do domingo, denominado como o “oitavo dia”. Segundo, porque revela como as polêmicas e tensões sociais e teológicas que existiam naquele tempo entre Judeus e Cristãos desempenharam um papel-chave na depreciação do sábado e na adoção do domingo por muitos cristãos.
Uma leitura cuidadosa da Epístola de Barnabé revela que o autor propõe demonstrar o total repúdio da parte de Deus ao judaísmo como religião verdadeira. Enquanto Ignácio condena o “judaizar” de alguns cristãos, Barnabé rejeita totalmente”o judaísmo” como um sistema tanto teológico quanto social. Pareceria que os ataques do autor são direcionados particularmente, como A. Harnack observa, “contra cristãos judaizantes que provavelmente queriam salvaguardar crenças e costumes religiosos judaicos.”18 De fato, Barnabé categoricamente condena aqueles cristãos que pendiam a uma posição de comprometimento com os judeus, dizendo, “acautelai-vos e não sede como alguns, amontoando vossos pecados e dizendo que o concerto é deles tanto quanto vosso. É nosso, mas eles o perderam completamente logo após Moisés tê-lo recebido…” (4:6-7).19
A fim de persuadir os cristãos judaizantes a abandonar crenças e práticas judaicas, Barnabé lança um duplo ataque contra os judeus: difama-os como um povo e esvazia suas praticas e crenças religiosas de qualquer validade histórica, ao colocar como alegoria o seu significado. Como um povo, os judeus são descritos como “homens miseráveis” (16:1) que foram enganados por um anjo mau (9;5) e que “foram abandonados” por Deus por causa de sua antiga idolatria (5:14). Puseram “seus profetas à morte” (5:12) e crucificaram a Cristo (considerando-o nada, ferindo-o e cuspindo nele” (7:9) Quanto as crenças judaicas fundamentais (tais como o sistema sacrifical, o concerto, a terra prometida, a circuncisão, as leis levíticas, o sábado e o templo), o escritor procura demonstrar que não se aplicam literalmente aos judeus, pois têm um significado alegórico mais profundo, o qual encontra seu cumprimento em Cristo e na experiência espiritual dos cristãos.20 O escritor contudo, como assinala J.B. Lightfoot, ainda que “seja um antagonista descomprometido do judaísmo,… além desse antagonismo nada tem em comum com as heresias anti-judaicas do segundo século.” (21) W.H. Shea corretamente observa de fato que “em muitas das crenças cardinais do cristianismo, o autor é bastante ortodoxo”.22
O repúdio e separação do judaísmo da parte de Barnabé, representa então, não a expressão de um movimento herético, mas a necessidade sentida pela comunidade cristã de Alexandria. Contudo, o método alegórico e atitude extrema do escritor testificam, como J. Lebreton apropriadamente assinala, “não até o profundo pensamento da Igreja, deveras, mas pelo menos, até ao perigo que o judaísmo representava para ela, e a reação da Igreja ao perigo.”23
A depreciação do sábado e a introdução do “oitavo dia” é parte desta tentativa que faz o autor para destruir os alicerces do judaísmo. Sua argumentação merece atenção. Ele escreve:
1 – Além disso, então, está escrito sobre o sábado também nos Dez Mandamentos, os quais Deus proferiu a Moisés face a face no Monte Sinai, “E tratar o sábado do Senhor como santo com mãos limpas e um coração puro”. 2 – “E, em outro lugar ele diz: “se meus filhos guardarem o sábado, farei minha misericórdia repousar sobre eles”. 3 – Ele menciona o sábado no princípio da criação. “e em seis dias fez Deus a obra de Suas mãos, e terminou no sétimo dia, descansando nele e santificando-o.” 4 – Observem, filhos, o que “ele acabou em seis dias” significa. Isto é o que significa, que em seis mil anos o Senhor concluirá todas as coisas, pois um dia para ele significa mil anos. Ele mesmo dá testemunho quando diz: “eis que o dia do Senhor será como mil anos”. Portanto, filhos, em seus dias, isto é, em seis mil anos, todas as coisas se terminarão. 5 – “E ele repousou no sétimo dia” significando isto: quando vier seu filho e destruir o tempo do iníquo, e julgar o ímpio mudar o sol, a lua e as estrelas, então ele descansará apropriadamente no sétimo dia. 6 – Mais adiante diz: “considerai-o santo, com mãos limpas e um coração puro”. Se, então alguém puder agora, sendo puro de coração, considerar santo o dia que Deus declarou santo, então estamos inteiramente enganados. 7 – observem que acharemos o verdadeiro descanso e o consideraremos santo somente quando formos capazes de fazer assim, tendo nós mesmos nos tornado justos e com o cumprimento da promessa de que não há mais desobediência, mas todas as coisas se fizeram novas pelo Senhor. Então seremos capazes de considerá-lo santo, depois que nós mesmos nos tornamos santos. 8 -Adiante ele lhes diz: “vossas luas novas e sábados não posso suportar”. Sabei o que quer dizer: não são os atuais sábados que são aceitáveis para mim, mas aquele que eu fiz, no qual, levando tudo a descansar, farei o início de um oitavo dia, isto é, o inicio de um outro mundo. 9 – Eis o porquê de observarmos o oitavo dia com regozijo, no qual Jesus também ressurgiu dos mortos, e mostrou-se a si mesmo erguido ao céu. (cap. 15)24
Três argumentos básicos são usados por Barnabé para invalidar a observância do sábado:
(1) O repouso do sétimo dia não é uma experiência presente mas um repouso escatológico que será concretizado na vinda de Cristo quando todas as coisas houverem mudado (versos 4 e 5).
(2) A santificação do sábado é impossível ao homem no tempo presente, pois ele mesmo é impuro e não santo. Isto será realizado no futuro “depois que nós mesmos nos tornarmos santos” (versos 6 e 7).
(3) Deus explicitamente declarou; “vossas luas novas e sábados não posso suportar”, portanto, os sábados atuais não são aceitáveis a Ele, mas somente aquele que está no futuro. Este marcará o princípio do oitavo dia, isto é, de um novo mundo. (verso 8).
Com estes argumentos Barnabé, “utilizando esta arma de exegese alegórica”25, esvazia o sábado de toda a sua validade para a época atual, esforçando-se para defender a igreja da influência de tão importante instituição judaica. Seu esforço de suprimir o sábado por meio destas argumentações alegóricas e escatológicas intrincadas, é um reconhecimento implícito da influência que o sábado ainda estava exercendo na comunidade cristã da Alexandria. O “oitavo dia” é inserido no final do capítulo 15 como apêndice da discussão sobre o sábado, e duas justificativas básicas são dadas para sua “observância”:
(1ª) O oitavo dia é uma prolongação do sábado escatológico: isto é, após o final da presente época simbolizada pelo sábado, o oitavo dia assinala “o princípio de um novo mundo” (verso 8). “Eis o porquê de passarmos ( agomen ) até mesmo ( dio kai ) o oitavo dia com regozijo (verso 9).
(2ª) O oitavo dia é “também ( en hv kai ) o dia em que Jesus ressurgiu dos mortos” (verso 9).
A primeira motivação teológica para a observância do domingo é de natureza escatológica. O oitavo dia, de fato, representa o “início de um novo mundo”. É aqui que aparece a incoerência do autor talvez aceitável naquela época. Enquanto, por um lado repudia o atual sábado, visto que este tivesse um significado escatológico milenar, por outro lado, justifica a observância do oitavo dia com as mesmas razões escatológicas fornecidas anteriormente para ab-rogar o sábado.
É digno de nota que Barnabé apresenta a ressurreição de Jesus como o segundo ou adicional motivo. O domingo é observado porque naquele dia, “Jesus também ( en hv kai ) ressuscitou dos mortos” (verso 19). Por que é mencionada a ressurreição como a razão adicional para se observar o domingo? Aparentemente porque tal motivo não havia ainda adquirido importância primordial. Barnabé, de fato, apesar de seu agudo anti-judaísmo, justifica a “observância” do oitavo dia mais como uma continuação do sábado escatológico que uma comemoração da ressurreição. Isto indica um tímido e incerto início de guarda do domingo. A teologia e terminologia do domingo são ainda dúbias. Não há menção alguma de qualquer reunião ou celebração eucarística. O oitavo dia é simplesmente o prolongamento do sábado escatológico ao qual se une a memória da ressurreição. Mais tarde, em nosso estudo, será mostra do que o domingo era denominado inicialmente “o oitavo dia” não somente porque epitomizava a escatológica esperança cristã de um Novo Mundo, mas acima de tudo porque no crescente conflito entre a Igreja e a Sinagoga, ele melhor expressou o cumprimento e substituição do judaísmo (do qual o sábado era símbolo) pelo cristianismo.26 Jerônimo (cerca de 342-420 A.D.), por exemplo, explicitamente interpreta o simbolismo do sétimo e oitavo dias como a transição da Lei ao Evangelho, quando escreve que “após o cumprimento do número sete, nós entramos, através do oitavo, no Evangelho.”27
Os argumentos polêmicos apresentados por Barnabé para invalidar o sábado e justificar o oitavo dia como continuação e substituição do sétimo, revela quão fortemente os sentimentos anti-judaicos motivaram a adoção do domingo como novo dia de culto. Todavia, a sua argumentação paradoxal, seu fracasso em enxergar claramente entre o sétimo e o oitavo período escatológico, e sua incerta teologia do domingo, tudo parecem indicar que uma separação distinta entre o judaísmo o cristianismo bem como entre a observância do sábado e a do domingo não havia ainda tido lugar, pelo menos na Alexandria.28
JUSTINO MARTYR
Filósofo e mártir cristão, de cultura e origem grega, (29) Justino Martyr nos oferece o primeiro tratado amplo do sábado e a primeira descrição detalhada do culto dominical. A importância de seu testemunho deriva, acima de tudo, do fato de que nosso autor, um filósofo treinado e professor, no tratamento do problema do sábado, como observa F. Regan, “esforça-se, deveras, por uma conclusão perceptiva e equilibrada.”30 E mais ainda, como vivesse, ensinasse e escrevesse sua Apologia e Diálogo com Trypho em Roma, sob o reinado de Antonino Pius (138-161 A.D.) ele nos dá um vislumbre de como o problema do sábado e do domingo era sentido na cidade capital.31 Sua contribuição de ambos é deveras valiosas à nossa investigação.
A atitude de Justino para com o sábado judaico aparece condicionada tanto por seu conceito da Lei Mosaica, como por seu sentimento para com os judeus – este possivelmente evidenciou aquele. Barnabé, de origem judaica, com seu método alegórico tentou esvaziar tais instituições judaicas como sábado e a circuncisão de todo seu valor temporal e histórico, atribuindo-lhes significado espiritual e escatológico exclusivos. Justino, pelo contrário, sendo de origem gentia, ignorava o valor moral e corporal da legislação mosaica, e considerava a lei, como James Parkes declara, “uma parte das Escrituras, sem importância, um acréscimo temporário a um livro de outro modo universal e eterno, acrescentado em virtude da especial impiedade dos judeus.”32 Por exemplo, para Trypho, Justino explica: Nós também observaríamos a circuncisão da carne, os dias de sábado, numa palavra, todas as suas festividades, se não soubéssemos a razão do porquê lhes foram impostas, a saber, por causa de seus pecados e dureza de coração.33
Conquanto Paulo reconheça o valor educativo da lei cerimonial, Justino considera-a “de um modo negativo, como a punição para os pecados de Israel.”34 Ele confirma sua tese repetidamente. Após argumentar, por exemplo, que os homens santos anteriores a Moisés 35 não observaram nem o sábado nem a circuncisão, conclui: “Portanto, devemos concluir que Deus, que é imutável, ordenou estas coisas e outras similares, para serem feitas unicamente por causa dos homens pecaminosos.”36 O sábado, então, segundo Justino, é uma ordenança temporária, originando-se um Moisés, imposta aos judeus por causa de sua infidelidade, por algum tempo, precisamente até a vinda de Cristo.37
A aceitação desta tese é indispensável para Justino, a fim de salvaguardar a imutabilidade e ocorrência de Deus. Ele explica: Se não aceitamos esta conclusão, então teremos idéias absurdas, como a insensatez de que nosso Deus não é o mesmo Deus que existiu nos dias de Enoque e todos os outros, que não eram circuncidados na carne, e não observavam os sábados e outros ritos, uma vez que Moisés somente mais tarde os instituiu; ou que Deus não deseja que cada geração que sucede da humanidade sempre execute os mesmos atos de justiça. Qualquer uma das suposições é ridícula e despropositada. Portanto, devemos concluir que Deus, que e imutável, ordenou que estas coisas e outras semelhantes fossem cumpridas apenas por causa de homens pecadores.37
A Igreja Cristã jamais aceitou tese tão falsa. Dizer, por exemplo que Deus ordenou a circuncisão e o sábado unicamente por causa da impiedade dos judeus “como marcos distintivos, para destacá-los de todas as outras nações e de nós, cristãos” para que os judeus somente sofressem aflição,”38 faz Deus culpado, para dizer o mínimo, de atos discriminatórios. Implicaria que Deus deu ordenanças com o propósito primordialmente negativo de destacar judeus para a punição. Infelizmente, é com este pensamento que Justino argumenta pelo repúdio do sábado. O que segue, são os seus argumentos básicos:
(1º) Como, “antes de Moisés não havia necessidade de sábados e festivais, não são necessários agora, quando, segundo a vontade de Deus, Jesus Cristo, seu Filho, nasceu da virgem Maria, uma descendente de Abrão.”39 O sábado é, portanto, considerado por Justino como uma ordenança temporária, procedendo de Moisés, imposto aos judeus por causa de sua infidelidade, e designado a durar até a vinda de Cristo.
(2º) Deus não pretende que o sábado seja guardado, pois “os elementos não estão ociosos e não observam o sábado,”40 e Ele mesmo “não pára de controlar o movimento do universo neste dia, mas continua dirigindo-o como o faz em todos os outros dias.”41 Além do mais, o mandamento do sábado foi violado no Velho Testamento por muitos, tais como os principais sacerdotes que “foram ordenados por Deus a oferecer sacrifícios no sábado, bem como nos outros dias.”42
(3º) Na nova dispensação, os cristãos devem observar um sábado perpétuo, não ao ficarem ociosos durante um dia, mas ao absterem-se continuamente do pecado: A Nova Lei exige que observeis um sábado perpétuo, visto que vos considerais piedosos quando vos abstendes do trabalho em um dos dias da semana, e ao assim fazerdes, não compreendeis o real significado daquele preceito. Também achais ter feito a vontade de Deus quando comeis pão não levedado, porém tais práticas não dão prazer ao Senhor nosso Deus. Se houver um perjuro ou ladrão entre vós, que ele acerte seu caminho; se houver um adúltero, que se arrependa; assim estará guardando um sábado verdadeiro e pacífico.43
(4º) O sábado e a circuncisão não devem ser observados, pois são os sinais da infidelidade dos judeus, impostos a eles por Deus, para distingui-los e separá-los de outras nações: O costume da circuncisão da carne, dado desde Abraão, foi dado a vós como uma marca distintiva, para separá-los de outras nações e de nós, cristãos. O propósito foi que vós, e somente vós, pudessem sofrer as aflições que agora são vossas com justiça; que somente a vossa terra seja desolada, e vossas cidades arruinadas pelo fogo, e que os frutos de vossa terra sejam comidos pelos estrangeiros perante vossos olhos; para que a nem um de vós se permita entrar em vossa cidade de Jerusalém. Vossa circuncisão da carne é o único sinal pelo qual podeis certamente ser distinguidos entre todos os outros homens… Como declarei antes, foi por causa de vossos pecados e de vossos pais que, entre outros preceitos, Deus impôs sobre vós a observância do sábado como um sinal.44
Pode-se perguntar o que faria Justino atacar instituições tais como o sábado e a circuncisão, e fazer delas –símbolos do orgulho nacional judeu – o sinal da reprovação divina da raça judia. É possível que este autor estivesse influenciado pelas intensas hostilidades anti-judaicas que achamos presentes particularmente em Roma? Uma leitura do Diálogo deixa-nos em duvida. Embora Justino aparentemente busque dialogar desapaixonada e sinceramente com Trypho,45 sua descrição superficial e avaliação negativa do judaísmo, juntamente com seus veementes ataques contra os judeus, revela a profunda animosidade e ódio que nutria para com eles. Ele não hesita, por exemplo, de tornar os judeus responsáveis pela campanha difamatória lançada contra os cristãos: Não tendes poupado esforço algum em disseminar, em toda terra, acusações amargas, obscuras e injustas contra a única luz sem culpa e justa, enviado aos homens por Deus… As outras nações não trataram a Cristo e a nós, seus seguidores, tão injustamente como vós, judeus, que deveras sois os próprios instigadores da opinião maligna que têm do Justo e de nós, Seus discípulos… Sois culpados, não somente de vossa própria impiedade, mas também daquela de todos os demais.46
A maldição que era diariamente pronunciada pelos judeus na sinagoga contra os cristãos, aparentemente contribuiu para aumentar a tensão. Justino protesta repetidamente contra tal prática: Com toda a vossa força desonrais e amaldiçoais em vossas sinagogas todos aqueles que crêem em Cristo… Em vossas sinagogas amaldiçoai todos aqueles por cujo intermédio se tornaram cristãos, e os gentios realizam vossa maldição, ao matarem todos aqueles que meramente admitem que são cristãos.47
As hostilidades judaicas contra os cristãos parecem ter conhecido intensos degraus de manifestação em certas épocas. Justino diz, por exemplo: “Fazeis tudo ao vosso alcance para forçar-nos negar a Cristo.”48 Isto provocou uma compreensiva resistência e ressentimento da parte dos cristãos. “Nós vos resistimos e preferimos suportar a morte,” Justino replica a Trypho “confiantes de que Deus nos dará todas as bênçãos que prometeu por Cristo.”49A presença de ressentimento tão profundo contra os judeus, particularmente sentido em Roma, naturalmente levaria cristãos como Justino a lutarem contra instituições judaicas cardinais como o sábado, e fazer dele, como F. Regan assinala, “um sinal para destacá-los para a punição que eles bem merecem por suas infidelidades.”50
Este repúdio e degradação do sábado pressupõe a adoção de um novo dia de adoração. Que melhor modo de evidenciar a distinção cristã dos judeus, que o de adotar um diferente dia de adoração? É fato digno de nota que em sua exposição do culto cristãos ao imperador AntoninoPius, Justino duas vezes destaca que a assembléia dos cristãos ocorreu “no dia do Sol”: No dia que se chama dia do sol (th tw hlivou legomevnh hmevra) temos um ajuntamento comum de todos os que vivem nas cidades ou nos distritos vizinhos, e são lidas as memórias dos Apóstolos ou os escritos dos profetas, sempre que houver tempo.
O dia do Sol é, deveras, o dia em que nós todos fazemos nossa reunião rotineira, porque é o primeiro dia no qual Deus, transformando as trevas em matéria prima, criou o mundo; e nosso Salvador Jesus Cristo ressurgiu dos mortos no mesmo dia. Pois eles o crucificaram no dia anterior àquele de Saturno, e no dia seguinte que é o Dia do Sol, ele apareceu aos seus Apóstolos e discípulos, e ensinou-lhes as coisas que também passamos a você para considerações.51
Por que Justino enfatiza que os cristãos adoram “no dia do Sol”? Em vista de seu ressentimento para com os judeus e seu sábado, não é plausível admitir que ele o fez para tornar o imperador ciente de que os cristãos não eram rebeldes judeus mas cidadãos obedientes? Tendo em mente, como será visto no próximo capítulo, que os romanos já naquela época veneravam o dia do Sol, a referência explícita e repetida de Justino a tal dia bem poderia representar um esforço calculado para levar os cristãos mais perto dos costumes romanos que dos judeus. Isto parece fundamentado pelas mesmas razões que ele concede para justificar a observância do domingo. Sintetizaremos as três básicas como segue: (1ª) Os cristão se reúnem no dia do Sol para comemorarem o primeiro dia da criação “no qual Deus, transformando as trevas em matéria prima, criou o mundo.” (67,7 ) O vínculo entre o dia do Sol e a criação da luz no primeiro dia é mera coincidência? Assim não parece, especialmente porque Justino mesmo, em seu Dialogo com Trypho explicitamente compara a devoção que os pagãos rendem ao sol, com aquela que os cristãos oferecem a Cristo que é mais radiante que o sol: Está escrito que Deus uma vez permitiu que o sol fosse adorado, e contudo, não podeis descobrir alguém que jamais sofressem morte por causa de sua fé no sol. Mas podeis achar homens de toda nacionalidade, que pelo nome de Jesus sofreram e ainda sofrem toda espécie de tormento, ao invés de negarem sua fé Nele. Pois sua palavra de verdade e sabedoria é mais radiante e brilhante que a força do sol, e penetra as próprias profundezas do coração e da mente.52
Os cristãos aparentemente perceberam cedo a coincidência entre a criação da luz no primeiro dia e a veneração do sol que ocorria no mesmo dia. Como bem assinala J. Daniélou, descobriu-se que o dia consagrado ao sol coincidia com o primeiro dia da semana judaica e assim com o dia do Senhor cristão… O domingo foi visto como uma renovação do primeiro dia de criação.”53 Perguntar-se-ia o que levou à associação dos dois temas. É possível que os cristãos, em sua busca por um dia de adoração distinto do sábado judaico (o sinal da infidelidade judaica) percebessem no dia do sol, um substituto válido pois sua rica simbologia poderia eficazmente expressar a verdade cristã? Tal hipótese será examinada no capítulo seguinte.
(2º) Os cristãos adoram no dia do sol, porque é o dia em que”nosso Salvador Jesus Cristo ressurgiu dos mortos… Pois eles o crucificaram no dia anterior àquele de Saturno, e no dia seguinte, que é domingo, apareceu aos seus Apóstolos e discípulos” (67,7). A ressurreição de Cristo já era sentida como motivo válido para reuniões no dia do sol para adorar a Deus. Porém, como W. Rordorf admite, “na primeira Apologia de Justino (67,7) o motivo primordial para a observância do domingo era comemorar o primeiro dia da criação e somente secundariamente, também a ressurreição de Jesus.”54A ressurreição, apresentada tanto por Barnabé como por Justino como uma razão adicional para a guarda do domingo, tornar-se-á entretanto, gradualmente o motivo fundamental para o culto no domingo.55
(3º) Os cristãos observam o domingo porque sendo o oitavo dia “possui uma certa importância misteriosa, que o sétimo dia não possuía.”56 Por exemplo, Justino alega que a circuncisão era executada no oitavo dia porque era um “tipo de verdadeira circuncisão pela qual somos circuncidados do erro e da impiedade por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo que ressurgiu dos mortos no primeiro dia da semana.”57 Além do mais, as oito pessoas salvas do dilúvio no tempo de Noé “eram figura daquele oitavo dia” (o qual, todavia, sempre primeiro em poder), em que nosso Senhor apareceu ressurreto dos mortos.”58
Notemos que enquanto em sua exposição do culto cristão ao imperador, Justino repetidamente enfatiza que os cristãos se reúnem no dia do Sol (possivelmente, como sugerimos, para aproximarem-se mais dos costumes romanos na mente do imperador), em sua polêmica com Trypho, o judeu, Justino denomina o domingo “oitavo dia”, como distinção e substituição do sábado do sétimo dia.59As duas diferentes designações bem poderiam sumariar dois significativos fatores que contribuíram para a mudança do sábado para o domingo, isto é, anti-judaísmo e paganismo, poderíamos dizer que conquanto a aversão prevalecente para com o judaísmo em geral e para com o sábado em particular ocasionaram o repúdio do sábado, a existente veneração pelo dia do sol orientou os cristãos em direção a este dia, tanto para evidenciar sua incisiva distinção dos judeus e para facilitar a aceitação da fé cristã pelos pagãos. Esta conclusão se tornará cada vez mais clara nos dois próximos capítulos em que examinaremos a influência do culto do sol e a primitiva teologia do domingo.
CONCLUSÃO
Esta breve análise dos textos de Ignácio, Barnabé e Justino confirma a presença em suas respectivas comunidades (Antioquia, Alexandria e Roma) dos fortes sentimentos anti-judaicos, os quais, aumentados pelas tensões sociais e convicções teológicas, criaram a necessidade de se evitar qualquer semelhança com o judaísmo.
Ignácio em Antioquia condena a “judaização” de alguns cristãos e particularmente sua “sabatização” (isto é, a observância do sábado segundo o modo judeu), impondo aos cristãos que “vivam segundo a vida do Senhor.” Embora, segundo nossa avaliação, o texto de Magnesians 9,1 se refira à “vida do Senhor” em vez de “dia do Senhor” isto não minimiza o fato de que a condenação do “sabatização” e o convite “para não segundo o judaísmo,” indica que a separação do judaísmo estava sendo conclamada. Estas condições indubitavelmente encorajaram a adoção do culto dominical a fim de forçar uma distinção mais clara em relação aos judeus.
Barnabé na Alexandria, em seu esforço para neutralizar a influência dos costumes judaicos, assume uma posição radical, repudiando com seu método alegórico, a validade histórica das cerimônias e crenças judaicas e “negando pura e simplesmente que a observância literal do sábado tenha sempre sido o objeto de um mandamento de Deus”.60 Ele destitui o sábado de seu significado e obrigação para o presente a fim de apresentar o oitavo dia como sua legítima continuação e substituição. Finalmente, o testemunho de Justino, vindo de Roma, confirma o que já havíamos reunido de outras fontes, a saber, a existência, particularmente na cidade capital, de profundos sentimentos anti-judaicos. Estes aparentemente influenciaram Justino a reduzir o sábado ao “próprio sinal de reprovação do povo judeu.”61 A adoção de um novo dia de adoração parece ter sido motivada pela necessidade de evidenciar uma clara dissociação dos judeus.62 Não é verdade, ainda hoje que o diferente dia de adoração dos muçulmanos, do judeu e do cristão torna muito mais notável a distinção entre eles?
A diversidade de motivos cedidos por Justino para justificar o culto do domingo (a criação da luz no primeiro dia, a ressurreição de Cristo, o oitavo dia da circuncisão, as oito almas da arca, os quinze cúbitos – sete mais oito de água que cobriram as montanhas durante o dilúvio) refletem o esforço que se faz para justificar uma prática só recentemente introduzida. Ao se acalmar a controvérsia entre o sábado e o domingo, e ao tornar-se o último solidamente estabelecido, a ressurreição emergiu como a razão dominante para sua observância.
A investigação conduzida até aqui sugere que as principais causas que contribuíram para o abandono do sábado e a adoração do domingo são, em grande escala, de natureza social e política. A tensão social que existia entre judeus e cristãos bem como a política romana anti-judaica, grandemente condicionaram os cristãos em sua avaliação negativa de significativas instituições do Velho Testamento como o sábado.
Uma pergunta, todavia, permanece não respondida, a saber, por que foi o domingo, não qualquer outro dia da semana (tal como a quarta-feira ou a sexta-feira, por exemplo) escolhido para evidenciar a separação cristã do judaísmo? Para responder a esta pergunta, examinaremos nos dois capítulos seguinte, primeiro a possível influência do culto do sol com o seu correlato dia do sol e, segundo, o motivo cristão para a escolha e observância do domingo.
NOTAS E REFERÊNCIAS:
1. Irenaeus, Adversus haereses 5,2,8,4
2. C.S. Mosna, Storia della domenica, p. 95.
3. W. Rordorf, Sunday, p, 140, observa, com respeito a Magnesians 9,1, que “a real importância desta passagem de Ignácio.., é que fornece a evidência contemporânea de que muitos cristãos gentios eram tentados a observar o sábado.”
4. A tradução usada das cartas de Ignácio é a de E.J. Goodspeed, The Apostolic Fathers, 1950, com exceção de Magnesians 9,1, que é nossa própria tradução.
5. Este conceito de um movimento cristão espiritual dentro do Velho ‘testamento, do qual os profetas eram expoentes e exemplos, pode parecer-nos não realista, mas é indicativo do profundo respeito de Ignácio pelo Velho Testamento. F.A. Regan, Dies Dominica, p. 26, nota a respeito: “a insistência de Ignácio no papel dos profetas ao prepararem o caminho para Cristo e a Igreja, evidencia o preponderante espírito dos autores da Antiguidade Cristã em sua profunda reverência por aqueles santos personagens do Velho Testamento e sua mensagem inspirada.”
6. Veja notas 10,11.
7. Cf. Fritz Guy, “The Lord’s in the Letter of Ignatius to the Magnesians” AUSS 2 (1964):1-17. Richard B. Lewis, “Ignatius and the Lord’s Day”, AUSS 6 11968): 46-59; Wilfrid Scott, “A Note on the Lord KYPIAKH in Rev. 1:10”, NTS 12 (1965):72-73; Kenneth A Strand, “Another Look at “Lord’s Day” in the Early Church and in Rev. 1:10″ NTS 13 (1965): 174-181; C.W. Dugmore, “Lord’s Day and Easter”, Neotestamentica et Patristica in honorem sexaqenarii O. Cullmann, 1962, pp. 272-281; Robert A. Kraft, “Some Notes on Sabbath Observance in Early Christianity”, AUSS 3(1965): 27-28.
8.Fritz Guy (nota 7,p,16).
9. Kenneth A. Strand, Three Essays on Early Church History, 1967, p. 45, cf, seu estudo mais longo citado em nota 7.
10. R.B. Lewis (nota 7), p. 50; Kenneth A. Strand (nota 9) p. 45, igualmente assinala que “o contraste aqui, então, não é entre dias como tal, mas entre modos de vida – entre o estilo de vida “sabatizante” dos judeus e a novidade de vida simbolizada para o cristão pela ressurreição de Cristo”; Robert A. Kraft (nota 7) observa de modo similar: “É certamente ilegítimo ver atrás deste contexto uma simples (I) controvérsia sábado/domingo. É mais um contraste de dois diferentes estilos de vida – um separado da “graça” (judaizante); o outro no poder da vida da ressurreição”.
11. Autores pagãos e cristãos constantemente condenaram a ociosidade e comemoração festiva que caracterizavam a guarda de sábado judaica. Plutarco (ca. 40-120 A.D.) coloca a guarda de sábado judia entre as existentes superstições perversas (De superstitione 3). Ele reprova especialmente o beber (Questiones convivales 4,6,2 e sentar-se “imóveis em seus lugares” no sábado (De superstitione 8; veja págs… notas 24 e 39, para referências adicionais de autores pagãos). O autor da Epistle to Diognetus denuncia a judaica “superstição com respeito a sábados”. Ele rotula como “ímpios” os ensinos judaicos de que Deus proibiu-nos de fazer o que é bom nos dias de sábado” Cap. 4, ANF I, p.26; cf. Justin, Dialogue 19,2; Clement of Alexandria, Stromateis6,16,41,7; Syriac Didascalia 26; Epiphanius, Adversus haereses 66, 23,7; Chrysostom,De Christi divinitate, 4). À luz destas denúncias constantes, o “sabatizar” condenado por Ignácio representa a guarda de sábado judaica fanática e supersticiosa, que aparentemente atraía tanto pagãos quanto cristãos (cf. Tertuliano, Ad, Nationes 1,13).
12. Pseudo-Ignatius, Epistle to the Magnesians 9, ANF I, pp. 62-63.
13. A.P. Hayman, ed. e tradução, The Disputation of Sergiusthe Stylite Against a Jew, CSCO 339, p. 75. É interessante notar o raciocínio adotado por estes cristãos sírios que, por exemplo, “davam azeite e pão asmo à sinagoga” (22:12) Sérgio cita-os dizendo: “Se o Cristianismo é bom, eis que sou batizado como cristão; mas se o Judaísmo também é, eis que me associarei parcialmente com o Judaísmo para que eu possa apegar-me ao Sábado” (22, 15 pág 77 – grifo nosso), Hayman faz um comentário significativo deste texto: É possível citar evidências provando que a Disputa de Sérgio, o Stylite, esta testemunhando aqui a uma situação endêmica na Síria, do primeiro ao décimo terceiro século A.D. Das advertências do DIDASCALIA no terceiro século, aos cânones da Igreja Jacobita no século treze, as autoridades cristãs esforçavam-se para contra-atacar a atração perene das observâncias judaicas sobre os Cristãos. Não somente na Síria, mas por todo o Oriente, e ocasionalmente no ocidente, a Igreja estava perpetuamente confrontando o problema dos cristãos judaizantes, como o demonstra o estudo extensivo de Marcel Simon sobre o fenômeno. A polêmica anti-Judaica da Igreja era motivada, não por quaisquer considerações teológicas abstratas, mas por uma ameaça real á sua posição” (ibid, pág 75).
14. Com respeito à observância do sábado na igreja primitiva, veja discussão sobre a Igreja de Jerusalém e os nazarenos, págs 135 f.; Gospel of Thomas 27; “(Disse Jesus): Se jejuas não saindo do mundo, não encontrarás o reino; se não guardas o sábado como sábado, não verás o pai” (E. Hennecke, New Testament Apocrypha, 1963, 1, pág 514). As tendências “cristãs-judaicas” deste Evangelho favorece uma interpretação literal da observância do sábado; Justino Martyr em seu DIALOGUE 47 faz diferença entre os cristãos judeus que obrigavam os gentios a observar o sábado e aqueles que não o fazem, indicando claramente assim, a existência de cristãos guardadores do sábado; Martyrdom of Polycarp8,1, registra que a morte de Policarpo ocorreu em um festival de sábado”. A citação bem poderia refletir a observância do sábado entre alguns Cristãos na Ásia Menor; apesar de sua atitude hostil para com os judeus exibida pelo documento (veja 12,2; 13,1); veja pág. 234/35 para uma discussão de referências adicionais do DIDASCALIA siríaco e do CONSTITUTIONS DF THE HOLY APOSTLES.
15. O Cânon 29 do Concílio de Laodicéia (cerca de 3§0 A.D.) condena explicitamente a veneração do sábado e obriga trabalhar em tal dia para demonstrar um respeito especial pelo domingo: “Os Cristãos não devem judaizar ao repousarem no sábado, mas devem trabalhar neste dia, honrando antes, o dia do Senhor repousando, se possível, como Cristãos. Contudo, se alguém for encontrado judaizando que seja anátema de Cristo”. (MansiII, págs. 569, 570). O Cânon reconhece, contudo, a natureza especial do sábado, uma vez que prescreve que “Os Evangelhos, juntamente com outras escrituras, sejam lidos no sábado”. Cf. ainda os Cânones 49,51; Athanasius,Epistolas Festales14, 5 PG 26,1421, exorta seus leitores a não caírem novamente na observância do sábado; cf. De Sabbatis et circumcisone 5 PG 28 139; também Ps-Athanasius, Homilia de semente 13,PG 28, 162; Cyril, Catecheses 4, 37 PG 33, 502, adverte os catechumens a não recaírem na religião judaica; Basilconsidera hereges aqueles que advogam a observância do sábado, Epistula 264,4, PG 32, 980; Epistula 265, 2 PG 32, 988; John Chrysostom denuncia energicamente aqueles cristãos que visitavam as sinagogas e celebravam festividades judaicas, particularmente o sábado, Adversus Judaeus 1, PG 48, 843,856 e 941; Gregory de Nyssa, Adversus eos qui castigationes aegre ferunt, PG 46, 309, considera os dois dias, sábado e domingo como irmãos, e diz; “com que olhos vedes o Dia do Senhor, vós que haveis desonrado o sábado? Talvez ignoreis que os dois dias são irmãos e que se feris um, bateis no outro? ” Palladius (cerca de 365-425 A.D.) em sua história do primitivo monasticismo, conhecida como Lausiac History, repetidamente faz referência à observância tanto do sábado como do domingo (7,5; 14,3; 20,2; 25,4; 48,2); por outras referencias, veja C. Butler, The Lausiac History of Palladius II, Texts and Studies 6, 1904, pp, 198f.
16. Cf. Johannes Quasten, Patrology, 1953, 1, pp. 90-91; E Goodpeed, Apostolic Fathers, 1950, p. 29; William H. Shea. “The Sabbat in the Epistle of Barnabes”, AUSS 4 (julho de 1966): 150; J.B. Lightfoot, The Apostolic Fathers, 1980, I, part 1, pág. 349; A.L. Williams, “The Date of the Epistle of Barnabas”, Journal of Theological Studies 34 (1933) 337-346.
17. J.B. Lightfoot comenta a este respeito: “o quadro… que apresenta de feudos entre judeus e cristãos está de acordo com o estado da população daquela cidade (Alexandria), cujos vários elementos estavam continuamente em conflito” (The Apostolic Fathers, 1926,pág.240).
18. Schaff-Herzzog Encyclopedia of Religious Knowledge, 1908, ed. s.v. “Barnabas” por A. Harnack, cf. ainda Constantin von Tischendorf, Codex Sinaiticus, ed 8, n.d., pág 66, que igualmente destaca: “é endereçado àqueles cristãos que, vindo do Judaísmo, desejavam manter, no Novo Testamento, certas peculiaridades do Velho…”
19. James Parkes, The Conflict of the Church and Synagogue, 1934, pág 84, observa: “Toda a Epístola de Barnabé é uma exposição da Igreja como o verdadeiro Israel. É heresia até mesmo tentar partilhar as boas novas de promessa com os Judeus. Em tom de seriedade incomum, e com apelo especial, o autor adverte seus leitores contra tal incorreta generosidade”.
20. W.H. Shea (nota 16) pág 154-155, fornece um sumário conciso de ataque sistemático de Barnabé contra as crenças fundamentais judaicas.
21. J.B. Lightfoof (nota 17), pág 239.
22. W.H. Shea (nota 16), pág 151; veja nota 10, onde o autor enumera as doutrinas cristãs ortodoxas fundamentais encontradas no escritos de Barnabé.
23. J. Lebreton e J. Zeiller, The History of the Primitive Church, 1949,1, pág. 442. O mesmo autor oferece uma razoável explicação para a vigorosa reação de Barnabé contra o perigo do Judaísmo: “Devemos observar em conclusão, que este perigo judaico e a forte reação contra ele, pode ser explicada pelo que sabemos da grande influência dos Judeus em Alexandria: antes da pregação cristã, esta grande influência é demonstrada pela vida e obra de Filo; nos primeiros séculos da era cristã continuou e ameaçou a igreja: foi em Alexandria acima de tudo que os Evangelhos Apócrifos, com suas tendências judaizantes, foram lidos” (ibid. pág. 443, nota 10).
24. Tradução de E. Goodspeed (nota 16) pág. 40-41.
25. J. Lebreton (nota 23), pág 441; o autor observa que “Barnabé estava apenas seguindo o exemplo de numerosos exegetas judeus, que, igualmente faziam alegorias da lei” (ob. cit.); cf. Philo,De migratione Abrahami89.
26. Veja capítulo IX, págs.
27. Jerome, In Ecclesiastem II, 2, PL, 23, 1157.
28. C.S. Mosna, Storia della domenica, pág 26, apropriadamente observa que a argumentação intrincada e irracional de Barnabé é indicativa “do esforço que os cristãos judeus estavam fazendo para justificar seu culto”.
29. Tertuliano denomina-o “filósofo e mártir” (adversus Valentinianus 5). No primeiro capítulo de I Apology, Justino se apresenta como “Justino, filho de Prisco e neto de Bacchius, da cidade de Flavia Neapolis na Síria-Palestina”; cf. Eusébius, HE 4,11, 8.
30. F.A. Regan, Dies Dominica, pág 26.
31. Eusébius, HE 4,12,1: “Ao imperador Tito Aelius Adrian Antoninus Pius Caesar Augustus… Eu, Justino, filho de Prisco… apresento esta petição”; Johannes Quasten (nota 16), pág 199, com referência às duas Apologies, escreve: “Ambas as obras são endereçadas ao Imperador Antoninus Pius. Parece que S. Justino as compôs entre os anos 148-161, por que observa (Apology 1, 46): “Cristo nasceu há cento e cinqüenta anos sob o domínio de Quirinus”. O lugar de composição era Roma”,com respeito ao Dialogue, Quasten observa: “O Dialogue deve ter sido composto depois das Apologies, por que há uma referência à primeira Apology no capítulo 120” (ibid., pág. 202). Ainda que Eusébio (HE 4,18,6) indique Éfeso como o lugar onde a conversação se deu, provavelmente na época da revolta Barkokeba, mencionada nos capítulos 1 e 9 do Dialogue, é evidente que o Dialogue não relata a controvérsia exata, ocorrida cerca de 20 anos antes. Pareceria razoável assumir que Justino faz de uma controvérsia real que ele teve meramente a estrutura de seu Dialogue, o qual, contudo, escreve à luz da situação em Roma naquela época. O fato de que escreve o Dialogue em Roma e não em Éfeso, vinte anos após sua ocorrência, indica a necessidade que Justino sentia de apanhar a pena e defender o Cristianismo das acusações judaicas em Roma.
32. James Parkes (nota 19), pág,101; cf. Dialogue 19 e 22.
33. Justino, Dialogue 18,2, Falls,Justin’s Writings, pág. 175.
34. W. Rordorf, Sabbat, pág 37, nota 1.
35. No capítulo 19 do Dialogue, Justino cita especificamente Adão, Abel, Noé, Ló e Melquisedeque. No capítulo 46 ele dá uma lista de nomes de certo modo diferente.
36. J. Daniélou, Bible And Liturgy, pág 234, comenta o raciocínio de Justino dizendo: “Podemos ver desde o princípio que Deus poderia suplantar o Sábado sem contradizer-se de modo algum, pois foi levado a instituí-lo apenas porque foi forçado a fazer assim por causa da perversidade do povo judeu, e em conseqüência, tinha o desejo de fazê-lo desaparecer tão logo realizasse seu propósito de educação”.
37. Justin, Dialogue 23,1,2, Falls, Justin’s Writings, pág. 182.
38.Justin, Dialogue 16, 1, e 21,1.
39.Justin, Dialogue 23,3 Falls, Justin’s Writings, pág. 182.
40. Loc. cit.
41.Justin, Dialogue 29,3.
42. Justin, Dialogue 12,3, Falls, Justin’s Writings, pág. 166.
44. Justin, Dialogue 16, 1 e 21, 1, Falls, Justin’s Writings, pág. 172, 178. A menção da circuncisão e do sábado por Justino, como marcos distintivos com o propósito de proibir os judeus de “entrarem na vossa cidade de Jerusalém” (Dialogue16), parece ser uma referência implícita ao decreto de Hadriano que proibiu todo judeu de entrar na cidade, (cf. Dialogue 19, 2-6; 21,1; 27,2; 45,3; 92,4); no capítulo 92 do Dialogue, a referência ao edito de Hadriano aparece muito mais explícita. De fato, Justino claramente declara que a circuncisão e o sábado foram dados porque “Deus em sua presciência sabia que o povo (isto é, os judeus) mereceriam ser expulsos de Jerusalém e jamais lhe seria permitido entrar lá”. (Falls, Justin’s Writings, pág. 294): Pierre Prigent igualmente comenta que, segundo Justino, a circuncisão e o sábado foram dados a Abraão e a Moisés por que “Deus previu que Israel mereceria ser expulso de Jerusalém e não ser permitido que habitassem aí” (Justin et L’Ancien Testament, 1964, pág. 265 e p. 251.
45. Alguém poderia argumentar que algumas das propostas amigáveis de Justino para os Judeus são indícios não de tensão, mas de relacionamento amigável que existia entre os judeus e os cristãos, Justino não tece a possibilidade (a qual, entretanto, como ele admite outros cristãos rejeitavam) que os conversos judeus que continuavam observando a Lei Mosaica poderiam ser salvos, contanto que não persuadissem os gentios a fazer o mesmo? (Dialogue 47) Justino não chama aos judeus “irmãos” (ibid., 96) e promete “remissão de pecados” àqueles que se arrependeram (ibid., 94). Não diz Justino que a respeito do fato de que os judeus amaldiçoam os cristãos e os forçam a negar a Cristo, contudo “nós (isto e os cristãos) oramos por vós para que possais experimentar a misericórdia de Cristo?” (Ibid., 96). Enquanto, por um lado, não pode ser negado que Justino orava pelos judeus e lhes apelava come indivíduos a se arrependerem e a aceitarem a Cristo, por outro lado, deve ser reconhecido que a preocupação de Justino para com a salvação de judeus sinceros não mudou seu status, como um povo, de inimigos a amigos. De fato, na próxima sentença do capítulo 96 do Dialogue, Justino explica a razão para a atitude do cristão: “Pois Ele (isto é, Cristo) instruiu-nos a orar a ti pelos nossos inimigos”. Não há dúvida quanto a serem os Judeus os inimigos dos Cristãos. Justino explica, contudo, que a atitude hostil dos Judeus para com os Cristãos não é outra senão a continuação de sua oposição histórica como a rejeição da verdade e dos mensageiros de Deus. No capítulo 133, por exemplo, após reiterar a atitude rebelde tradicional dos judeus para com os profetas, ele declara: “deveras, vossa não está ainda erguida para fazer o mal, porque, embora haveis morto a Cristo, não vos arrependeis; ao contrário, odiais (sempre que o podeis) e nos matais… e não cessais de amaldiçoá-lo e àqueles que lhe pertencem, embora oremos por vós e por todos os homens, como fomos instruídos por Cristo, nosso Senhor, pois Ele ensinou-nos a orar até pelos nossos inimigos, e a amar aqueles que nos odeiam, e a abençoar aqueles que nos amaldiçoam”. (Falls, Justin’s Writings, págs. 354-355). Enquanto os cristãos, oravam pela conversão dos judeus, reconheciam ao mesmo tempo, como Justino diz, que os judeus não se arrependeram e que, como um povo, eram “uma nação inútil, desobediente e infiel” (Dialogue 130). “Os judeus”, Justino afirma alhures, “são um povo cruel, insensato, cego, defeituoso, filhos em quem não há fé” (Dialogue 27). Tal avaliação negativa dos judeus e do judaísmo reflete a existência de um conflito agudo tanto entre os judeus e cristãos como entre os judeus e o Império. Observamos, na verdade, como Justino interpreta o sábado e a circuncisão como as marcas da infidelidade impostas por Deus aos judeus para que somente eles pudessem sofrer punição e ser “expulsos de Jerusalém e jamais lhes permitir entrar aí”. (Dialogue 92, veja nota 44). Poderia ser digno de nota também que os apelos de Justino aos Judeus no contexto de uma condenação sistemática de suas crenças e costumes é semelhante ao apelo de Celsus aos cristãos para participarem na vida pública e orarem pelo Imperador, no contexto da mas sistemática e veemente demolição das verdades fundamentais do Cristianismo. Poderia ser que Justino e Celsus (ambos filósofos profissionais) usaram apelos sensatos para fazer com que seus ataques parecessem mais razoáveis?
46. Justino, Dialogue 17, Falls, Justin’s Writings, pág. 174,173; o fato de que as autoridades judaicas ativamente se empenharam em publicar calúnias contra os cristãos está fundamentado (1) pela tríplice repetição de acusação de Justino (cf. Dialogue 108 e 117); (2) pela reprovação similar feita por Orígenes (Contra Celsum 6,27; cf. ibid. 4,32); (3) pelo testemunho de Eusébio que pretendia ter encontrado “nos escritos dos primeiros dias que as autoridades Judaicas em Jerusalém enviaram apóstolos claros e categóricos aos judeus de toda a parte, anunciando a emergência de uma nova heresia hostil a Deus, e que estes apóstolos, revestidos de autoridade escrita, refutaram os cristãos em todos os lugares” (In Isaiam 18,1 PG 24, 213A); (4) pelo debate entre o Judeu e o Cristão preservado por Celsus, o qual talvez contenha o mais completo catálogo de acusações típicas proferidas pelos judeus contra os cristãos naquela época. Para uma discussão adicional do papel dos judeus na perseguição dos cristãos,veja W.H. Frend, Martyrdom and Persecution in the Early Church, 1965, págs 178-204.
47. Justin, Dialogue 16 e 96, Falls, Justin’s Writings, pág. 172, 299; o fato de que Justino se refere, em vários vezes, à maldição que era diariamente pronunciada contra os cristãos (veja capítulos 47; 93; 133) nas sinagogas, sugere que o costume era bem conhecido e divulgado naquela época. Epifânio (Adversus haereses 1,9) e Jerônimo (In Isaim52,5) confirmam a existência de costume em seu tempo; veja também pág.
48. Justin, Dialogue 96, Falls,Justin’s Writings, pág. 299, é digno de nota que, segundo Justino, prosélitos judeus, em comparação aos judeus étnicos preservavam um dupla porção de ódio pelos cristãos. Ele escreve: “Os prosélitos… blasfemam Seu nome, duas vezes mais que vós (isto é, os judeus) e também buscam torturar e matar a nós, os que cremos nEle, pois procuram seguir vosso exemplo em tudo” (Dialogue122, Falls, Justin’s Writings, pág. 337).
49.Justin, Dialogue96.
50.F.A. Regan, Dies Dominica, pág. 26; cf. Dialogue 19,2-4; 21,1; 27,2; 45,3; 92,4.
51.Justin, Dialogue 67, 3-7, Falls, Justin’s Writings, pág. 106-107 (grifo nosso).
52.Justin, Dialogue121, Falls, Justin’s Writings, pág. 335; cf. Dialogue 64 e 128.
53. J. Daniélou, Bible and Liturgy, pág 253 e 255,a relação causal entre o dia do Sol e a origem do domingo é investigada no próximo capítulo,veja especialmente págs.
54. W. Rordorf, Sunday, pág. 220.
55. O papel da ressurreição na origem do domingo é considerado no capítulo IX, pág.270-3.
56. Justin, Dialogue 24,1.
57. Justin, Dialogue 41,4.
58. Justin, Dialogue 138,1; a referência ás “oito almas” ocorre no Novo Testamento em I Pedro 3:20 e II Pedro 2:5. J. Daniélou percebe uma justificativa para o oitavo dia mesmo na referência de Justino (cf. Dialogue 138) aos “quinze cúbitos” de água que cobriram as montanhas durante o dilúvio (“Le Dimanche comme huitième jour”, Le Dimanche, Lex Orandi 39, 1965, pág. 65).
59. J. Daniélou, Bible and Liturgy, pág 257, comenta astutamente que o simbolismo do oitavo dia como primeiro dia “era usado pelos cristãos para exaltar a superioridade do domingo sobre o sábado”. Note que Justino usa o Velho Testamento, para sustentar tanto a tese de que o sábado era uma instituição temporária, introduzida como sinal de reprovação do povo judeu, como para provar a superioridade do domingo sobre o sábado. Os Pais da Igreja, veremos (pág. 285 f) encontraram “prova” adicional no Velho Testamento para justificar a validade do oitavo dia e para usar seu simbolismo como um eficiente engenho polêmico/apologético na controvérsia sábado/domingo.
60.J. Daniélou, Bible and Liturgy, pág. 230-231.
61. Ibid, pág. 233.
62. As motivações anti-judaicas para o repúdio do sábado e a adoção do domingo aparecem na literatura patrística subseqüente. O valor probatório de textos mais recentes é, entretanto, inferior, visto que constituem o segundo momento de reflexão sobre um fenômeno que já ocorreu. Por intermédio de um apêndice ao material considerado neste capítulo, poderíamos mencionar alguns textos mais recentes. Estes podem servir para corroborar as conclusões que surgiram. Orígenes (cerca de 185-254 A.D.) vê no maná que não caía no dia do sábado, uma preferência dada pelo próprio Deus ao domingo sobre o sábado já no tempo de Moisés: “Se então é certo que, segundo as Escrituras, Deus fez o maná cair no Dia do Senhor e o cessou no sábado, os judeus deviam compreender que o dia de nosso Senhor era preferível ao seu sábado, e se indicava então que a graça de Deus não descia do céu, de modo algum, em seu sábado, nem o pão celestial, que é a palavra de Deus, veio a eles… Contudo, em nosso domingo, o Senhor faz chover maná continuamente, do céu”. (In Exodum homiliae 7,5, GCS 29,1920); o autor da Epistle to Diognetusseveramente denuncia as observâncias do sábado e festivais judaicos como superstição “ímpia” (cap. 4); no Syriac Didascalia (cerca de 250 A.D.) o sábado é interpretado como um perpétua lamentação imposta por Deus aos judeus em antecipação ao mal que fariam a Cristo! “Ele (Moisés) sabia pelo Espírito Santo e lhe foi ordenado pelo Deus Poderoso, que sabia o que o povo faria a Seu Filho amado, Jesus Cristo, como até mesmo aí negaram-no na pessoa de Moisés, e disseram: “Quem te designou como cabeça e juiz sobre nós?”, portanto, ele ligou-os de antemão ao lamento perpétuo, no que separou e lhes deu o sábado. Por que eles merecem lamentar, por que negaram sua Vida e puseram as mãos em seu Salvador e o entregaram à morte. Por conseguinte, já desde aquela época havia sobre eles um lamento por sua destruição” (cap. 21, Connolly, pág 190-191). O autor deste documento então prossegue para provar de um modo sutil que aqueles “que guardam o sábado imitam o lamento” (ob. cit.) Indubitavelmente este era um modo impressionante de desestimular a guarda do sábado. Eusébio atribui à infidelidade dos judeus a razão para a transferência da festa do sábado para o domingo: “Por causa da infidelidade destes (judeus) o Logos transferiu a festa do sábado para o nascer da luz, e nos transmitiu, como figura do verdadeiro repouso, o dia do salvador, o dia que pertence ao Senhor, o primeiro dia da luz, no qual o Salvador do mundo, após ter completado toda a Sua obra entre os homens, e obtido a vitória sobre a morte, passou através das portas do céu” (Comentaria in Psalmos 91, PG 23, 1169). F.A. Regan, Dies Dominica, pág. 56, corretamente aponta que Eusébio era vítima de “grande exagero” ao afirmar que “foi o próprio Cristo que instituiu a mudança”. Talvez o mesmo Eusébio reconhecesse que cruzou os limites das credibilidade, pois alguns parágrafos depois ele contradiz o que havia antes declarado, dizendo: “Verdadeiramente, todo o mais, tudo que foi prescrito para o sábado, nós transferimos para o Dia do Senhor, visto que é o mais importante, aquele que domina, o primeiro e o único que tem mais valor que o sábado dos judeus.” (ibid., PG 23, 1172). Para outras referências, veja acima da nota 15 e na pág. 285f.

FONTE:Dr. Samuele Bacchiocclii (1938-2008) foi o primeiro não-católico a se formar na Pontifical Gregorian University, em Roma. Tendo recebido unia medalha (le ouro do Papa Paulo VI por conquistar a distinção acadêmica summa cum lande por sua tese: Do Sábado Para o Domingo: Uma investigação histórica do surgimento da observância do domingo no cristianismo primitivo. Nesse trabalho, Bacchiocchi, um adventista do sétimo dia. mostrou que não há nenhuma ordem
escriturística para mudar ou eliminar a guarda do sábado e apontou o papel preponderante da Igreja Católica na efetivação dessa mudança. O professor indicou ainda o anti-judaísmo e a adoração pagã ao Sol como fatores de abandono do sábado e influência na adoção do domingo. Ele evidenciou o anti-judaísmo latente nos escritos de alguns líderes cristãos do segundo século que “testemunharam e participaram no processo de separação do judaísmo que levou a maioria
dos cristãos a abandonar o sábado e adotar o domingo como novo dia de adoração’*. Autor de vários livros, era professor de teologia aposentado da Andrews University, no Estado do Michigan. E faleceu em 20 de dezembro de 2008. um sábado.

Tags: